Insensatez

Maria Cláudia Mesquita

A boca secou no estancar do desejo, Mais um texto pronto, mais uma vez o receio. As idéias de Pedro pareciam estacionar minhas culpas, meus argumentos, minhas cores de dentro, Tudo mudou depois que comecei a escrever seu olhar, suas razões, seu pulsar, e me perdi no fundo da sala, nos riscos no céu em sua preguiça de anoitecer, Vamos sair, Clara, comemorar mais uma semana. Imprime esse, eu leio amanhã, vamos, Desliguei na voz daquele homem, Vamos, Ele vem, ele vai, semana vem, semana vai. Saímos. Ele contava dos passos do ontem eu contava as passadas na calçada. Pegou na minha mão e me puxou pra dentro do bar. A música no fundo do salão convidou a alma, o calor convidou a cerveja, A mesa começou a batucar, Meu riso ficou frouxo e a mesa batucando era o desajeito de Pedro. Levantei e segui até o piano. Cheguei tão perto que o rapaz perguntou meu nome, Clara, quem se importa?, Ele anunciou meu nome me desafiando a cantar, Essa não, prometi pra... As primeiras notas já estavam lançadas, Ah, insensatez, que você fez, coração mais sem cuidado, O texto seguia como a canção no momento em que Pedro levantava para ver o que eu estava fazendo. Aproximou-se e sorriu. Ficou parado, olhando e admirando até o final. Dei um selinho no pianista e voltei com Pedro pra mesa, Como adivinhou? Sorri sem entender, Como assim? Como adivinhou? Insensatez? Tomei alguns outros goles e a boca já não estava tão seca.

Era nítido o seu comemorar, o festejar e não entendia o porquê. Começamos a girar e a lua cantou. Já passava das 10 horas da noite. Cantei uma, cantei duas, cantei demais. Pedro cantou também. Ele chamou, Ana! Vamos? Pegou a mão da mulher. Último gole, conta paga, os dois se despediram. Eu cheguei ainda bem pertinho das notas e o gostoso foi logo lançando outra e dessa vez nem retruquei, brilhei meus olhos e segui, Ah, Dindi, se soubesses o quanto te quero, o mundo seria, Dindi, tudo, Dindi, lindo Dindi... Dessa vez o beijo foi carregado de desejo, de mar, de saudade. Saímos pela rua abraçados e loucos, uma trama na outra, Você não existe, Clara. A semana inteira passou e Pedro entrou novamente em meu escritório às 18h em ponto. Eu com a boca cheia das minhas não existências. Água.

 

Janela do Tempo

Maria Cláudia Mesquita

O vento ousou pela fresta desenhando as paredes. Uma trança de palavras, sinônimos e tentativas de cores. Um raio de sol se mostrou curioso e dividiu o espaço riscando o cômodo no jogo das sombras contadas pela esquadria. Sentado a frente do teclado aquele homem balbuciava frases que compunham o quadro de seu pensar, Ou seria sentir? Fitava as mãos tímidas como um menino arquitetando o roubar de um beijo. Riscava os olhos nas teclas buscando a boca. Uma palavra, duas, três, Não era bem isso, e volta o cursor no primeiro espaço da página branca. Foi nessa lengalenga que Pedro contou as primeiras horas do dia. Estava terrivelmente só e tomado de sentimentos contraditórios. Expulsou alguns que a tela contou. Não gostou e não os apagou. Saltou do avião e ganhou a queda. O para-quedas não se abriu. Peles, ossos, órgãos estamparam o chão. Gostei. No céu o azul, no chão... Era o mosaico de um homem. Criou coragem e colou cada pedaço em lugar inesperado, fez arte. Os pés copiavam o desastre das mãos. A arte imitava suas palavras. A boca parou de falar enquanto os dedos beijavam a página. No mesmo quarto entrou um vulto, um ser sem cor, cheiro ou sons. Sentou ao lado de Pedro e o observou por alguns instantes na mesma timidez de gestos que o homem iniciou o dia. Trançou os dedos e ensaiou nomes, Pedro, Clara, Fernando, Maria, todos podem ser, Ele não ouviu. Ela arrumou os cabelos, olhou por um último momento a penteadeira antiga e desmanchou naquele ar e saltou para o fundo da memória. Dele. Nasceu a noite mais escura e fascinante do mês, A lua me deixou para poder abraçar o mar de algum lugar, O texto fluiu e contou as histórias de um pescador. Um qualquer. Quem se importa? Chamou o dia sem cansaço. Entrou desta vez pela fresta a garoa e com um risco do vento cantando que chegaria a chuva. Foi exatamente neste dia que Pedro mudou seu nome, trancou a casa e na ausência do sol foi namorar a tempestade. Sobre as páginas a vida, sob os passos a novidade, o medo e um sacudir de ombros, Quem se importa? O passado viu Pedro no transpirar do vidro. Rindo, Você.

 

 

Dor Não Cansa De Doer

Maria Cláudia Mesquita

Cada dor se conforma de ser, dizia enquanto lançava outra garfada na boca. Arregalei meus olhos sem saber se perguntava ou se minha face já havia dito. Ele riu continuando, Conforma-se e trata de ser e deixa de doer, e foi por aí que não entendi mais nada e a interrogação que Pedro leu na minha testa provocou mais uma palavra, Acaba, e daí? Pensei enquanto mordia um pedaço de pão. Continuei tentando ser engraçada, Pedro não viu graça e continuou suas considerações sobre a dor. Já  fazia algum tempo que Ana o deixara e o que ainda pesava era ver seus defeitos jogados nos contos do livro que ela lançou, A mentira e a separação. Teorizava sobre sua pseudo-cura e me alimentava de dados. Queria que eu escrevesse a sua versão da história alguma coisa que mostrasse ao mundo quem estava certo. Sempre gostei de escrever, sempre gostei dos desafios, dos temas na escola, depois nos sites e blogs de novos escritores. Agora era a história de Ana na visão de Pedro. Ela havia escrito um texto poético sobre o medo de amar, a armadilha da vida a dois, da separação. Eu me identificava com a mulher retratada por ela. Admirava Ana Campos mesmo sem a conhecer. Você entende que estou falando a verdade, Achei que a frase poderia ser o início de tudo. Aceito. Preciso de pelo menos 4 meses e de um encontro desses por quinzena. Você quer ler enquanto escrevo ou quer ler quando acabar? Se ler durante o caminho da minha escrita pode interferir e reescrever enquanto recrio as pequenas histórias. Você quer que eu leia o texto dela?

Ele ficou me olhando com ares de susto, destampei minhas questões todas de uma vez, ele estava pronto para falar, não para ouvir e decidir. O livro estava pronto e ele não sabia. Pedro era o livro. Eu queria ler. Ele achou que eu o escreveria, que poderia dar sentido àquela vida que se acabou. Dar sentido àquilo que se acaba. Ele me pediu um minuto e foi ao banheiro. Vi seu texto caminhando em direção ao banheiro, seguindo até o espelho, olhando suas olheiras. Lavou seu rosto, a nuca. Tocou a boca pálida, secou o rosto e voltou para a mesa, Eu quero ler ao final mas quero te ver uma vez por semana. Não precisamos falar muito do livro, mas gostaria de te ver escrever, fiquei curiosa e aceitei, Os nossos encontros podem ser no meu escritório todas as terças às 18 horas. Uma terça você conta, uma terça você me olha escrever. Como te ouvi hoje na próxima terça você me olha escrever. Pedro fez que sim com a cabeça. Continuamos o almoço e ele não falou mais de Ana, fiquei impressionada. Como alguém muda tanto o seu comportamento após lavar o rosto? Será que seus olhos tocaram no fundo do espelho? Será que falei demais? Eu não sou psicanalista, não sei entender o reflexo humano. Sei do egoísmo das minhas dores, dos preconceitos dos quais não me vi liberta. Como posso escrever das coisas que ele me contou e que contou tanto de mim? Soltei o cardápio e respondi ao garçom, Aceito sobremesa sim, Brigadeiro de Colher.

 

 

Solitude

Maria Cláudia Mesquita

Meu lugar é com cabelos soltos no travesseiro. Esqueço os velhos vãos e lanço os olhos de abrir. Posso voar, saltar do 20º andar, criar solas que me voltem ao alto, atender ao telefone e falar com um morto, posso rir de tudo isso sem ver mistério e sacudir os ombros para o que não parece coerente. As respostas do tempo são amenas e sinceras como a liberdade das plumas lançadas ao alto. Transporto-me ao quarto de infância e de lá vejo com quem misturo as  penas,  e ficamos intoxicados de tanto rir. A luz que vem da janela rouba o azul da manhã e todos os crimes são perdoados. Rir faz doer o abdome, o maxilar e o resto do corpo agradece todo o prazer. O risco convive no fechar os olhos e tudo deixar de existir na realidade mentirosa do medo. Viver vento no rosto ou lamber a boca do presente é como escovar o passado desprezando os pedaços que nasceram. Deixo tudo que está acordado em paz para sonhar as melhores realidades.

Toco no fio da irresponsabilidade, bebo refrigerante de uva, invento histórias que não se leem. Não importa se o mundo não puder acompanhar meus olhos abertos, os do mundo estão fechados. Não é possível tatear os sentimentos avessos e dar a eles a raridade. Os sonhos nos alimentam de liberdade e essa corre solta dentro do corpo e os sentimentos passam a viver como coceira gostosa de coçar. A dor quer cansar de doer, o amor pulsar de tanto amar. O ar se faz ainda mais evidente assim como um laranja querendo mostrar que existe um lugar em que sonhar junto com outro mundo pode ser ainda mais feliz. De preferência com os pés voando dentro do mar.

 

 

Uma

Maria Cláudia Mesquita

Ainda verão naquela manhã quase fria. Passos e perdas,  pedras e esquinas. Poderia terminar com tudo ali mesmo se estivessem em câmera lenta, mas a mulher olhou sem ver além das coisas de mulher quando não quer ver o interno e fixa na pele, nos óculos, na roupa, na aparência. Eu poderia ser como ela, pensou uma, Eu poderia ser ela, pensou a outra. Não fazia muita diferença, eram duas forças, persistência e esperança. Persistência de ser vista, esperança de ser vida. Seguiram o sinal, percorreram uma quadra, pés no mesmo passo. Desencontraram novamente. Tudo que é normal reveste avesso e o externo retoma seu lugar, recobra aparências, fatos, enquadramentos, retratos.

Observo do alto, seguem ruas paralelas, passada constante, retomam o ponto de partida. Abraçam seus anseios, unem mãos, unidade. Sentido, subjetividade, cor e sonho. Um milhão de mulheres, uma. Olhos pacientes, anseios e pulso. Bate, bate, bate... Chega noite e o céu conta estrelas. Lágrimas de tantos brilhos. Alegria, olhos vistos. Persiste e espera.

 

Corpo (ou Conserva)

 

Maria Cláudia Mesquita

 

Tinha dedos de tingir o mar. Eram todos os sentidos de verdes e azuis, de céu, do inverso da noite, cores claras como a pureza do amor. A lua lambia de longe, vestida da claridade da tarde ainda alta, correndo os ventos, fitando o sol. Estava riscando a areia, recortando corações em flecha, pintando palavras de menina, do roxo e laranja do curto vestido. Dedos curtidos, pés nas nuvens, carneirinhos desenhados na areia. Seus sonhos que o mar teimava em regar.

A lua pedia para a noite chegar, a menina não sabia se ficava, se a casa estava cheia de sons ou versos de solidão. Mergulhou no salão, duas torres na porta, na beira da sala. Seguia a praia vestida de azulejos. A casa estava por lá, construída, paredes e vãos. Os olhos do gato estavam ali, um miado de fome, ou de boa noite? Passou os dedos na garganta, arranhou, lançou a voz que refletiu no espelho. Olhos de deuses nos cantos das paredes desconstruídas, descoloridas, revestidas de pecado.

Tomou do leite do gato. Miou. Lançou as unhas, ronronou. Conheceu o obscuro nas voltas dos muros, das lentes dos ventos, das verdades dos instintos. Rasgou seus vestidos, era pelo, era salto, eram 7, vidas. Agarrou os altos das árvores. Livre para os medos, para os sustos, para a hábitos de bicho arisco. Mais uma vez abraçava os sons do mar com a compreensão perfeita que só na irracionalidade se dá. Saltou sem asas e elevou-se ao chão. Roeu suas unhas e desencantos. Vibrou a mais forte alegria. Estava viva apesar de cada morte.

Nem se deu conta do tempo, de quantas vezes a chuva estampou o seu rosto. Tinha cacos nas mãos. Não cortavam, não temiam a alegria do tempo. Era só a areia da ampulheta, seus sonhos, seus enfeites. Tinha toda a beleza e um universo entre suas noites, na razão de seus dias.

O mar salgava a saudade. Conserva. A lua voltava a cada virada das areias. Não poderiam ser as mesmas. Tons da paz que chega mansinho a cada virada da alma.

Maré

Maria Cláudia Mesquita

 

Só queria o som do mar. Ouvir na concha, nos mares de dentro, mistério e vida do que vai-vem que nunca mais soa o mesmo sal no ruir dos temores que saem na voz, no ouvido e no sopro de um deus de dentro, obscuro e quase mortal. Pressa e calma contando das luzes do dia, dos olhos fechados dos cheiros e ideais. Nem cedo ou entardecer. Lembranças. Passos e lentidão do branco-e-preto da memória que o vento leva-releva, perdoa e banha nas batidas das novas folhas nas velhas árvores.

Ondas curtas, revoltas longas transformam a beira levando os pés ao fundo. Transporta e transgride o corpo em realidade. A sonoridade se faz silêncio. Sopra no peito. Agride, respira, inspira os ventos brindando força. Serena. Navega e canta. O mar consome e completa, versa os olhos do íntimo lambendo as imagens do interno. A voz rouca da concha conta inúmeros segredos.

Nascente

Maria Cláudia Mesquita

O amor tem feito coisas...*

Vestiu os olhos com a imagem daquele objeto. Era um cristal, um mimo, uma delicadeza frágil, pura, que irradiava cores por todas as paredes da sala. Um medo enorme tomava conta de seus desejos.  O menino sorria de suas ideias, Vou colocar só um dedo! Queria tocar a nascente daqueles raios, ver se as cores mudavam, se as paredes brilhariam mais ou menos. Saiu de perto, a idéia fixa persistia, virava a cabeça procurando a mãe, a avó ou alguém que o pudesse surpreender, Ninguém? Chegou pertinho da mesa e os dedos traçaram alguns passos marcando o tampo de vidro. Um som surgiu no corredor e a mão correu para dentro do bolso.

Pedro começara a assobiar. Não sabia nada dos sons, era atrapalhado para cantar e dançar. Ouvia sempre de sua mãe que era desatento e descuidado e sua mente repetia, Menino, tira o dedo daí!, Deixa eu te servir, Pedrinho, nem pense em chegar perto da mesa! Ele estava cada vez mais próximo do objeto, seus olhos brilhavam mais e mais enquanto soprava mais cuspe do que notas. Tanto ar, medo e desejo causavam tonteira.

O brinquedo foi parar no chão, Ufa!, caiu no tapete! Continuou inteiro. Buscou com todo cuidado, dedos leves amparando as luzes multicores, como se fosse um filhote de estrela. Colocou sobre a mesa e deixou os dedos caminharem sobre as pontas, sobre o centro controlando as cores. Cuidava. Ana entrou na sala. Viu o menino com cara de quem fez arte, Quero brincar também! Chegou bem perto da estrela. Como num piscar de olhos tudo estava espatifado. Começaram a rir, Nasceu um rio de estrelas!

* Iluminados

Sou

Maria Cláudia mesquita

 

Olhos na chuva, na véspera, na dúvida. Espera é pétala, rio raso de segredos tocando pés. Revelação. Recorto paisagens nas cores do seu sorriso. Encontro paz. Sou você. Asas nas águas, na chuva, no rio, no encontro com os nomes de Deus. Amor, sou eu.

 

Dedos na sombra, na escuridão, na vela. Chama dança e estampa as paredes, cobre, ilumina. Voa as cores de dentro, ar e falta, pássaro e flor. Sou. Ainda corro por, sobre e onde. Nado ou afogo, no seu abraço.

 

Sou quando água toca os olhos, saliva na boca. Sou a re-volta, tempestade e ventania ou asas de amor. Parte, re-parte.

Meditação

Maria Cláudia Mesquita

 

Era desejo de tocar um sentimento. Caminhava as pontas dos dedos na terra formando desenhos, movimento de mãos, carinhos. Da terra. As unhas teimavam em tingir o gesto que durou alguns minutos, Mãe, o que você está fazendo? Ela sorriu e voltou do transe e antes de responder, Quer brincar? A mãe tomou coragem e respondeu sorrindo, Anjo meu, quer brincar do que? Bonecas? Mais uma vez sorriu e correu os dedos marcados na mão da criança.  Eu queria brincar daquilo que você estava brincado. Surpresa a mãe pegou as mãos da menina, quase uma mocinha, e estampou as marcas na terra do vaso. Agora mexa os dedos, querida, e me diz o que sente. A menina ficou sentindo a terra. Fez cara séria enquanto futucava o vaso. Olhava o tempo, a ventania na varanda e fazia ainda mais força com as mãos. A mãe se distraiu com aquela imagem e seus sentimentos emolduravam aquele momento. 

A terra foi tomando conta do chão da varanda e as duas ficavam cada vez mais sujas com a séria brincadeira. Depois de algum tempo a menina coloriu um beijo no rosto da mãe, Agora eu quero brincar de novo do que você está brincando. Falou baixinho no ouvido da filha, Do que estou brincando, meu amor? A menina respondeu sussurrando, Como que eu faço para pensar o que você está pensando? A mulher não aguentou e soltou uma gargalhada. A menina gargalhou também. Tirou o ténis da menina, já estava descalça. Começou a dançar sobre a terra espalhada na varanda. Falou para a filha, Eu só estava sonhando que estava dançando na terra do jardim do meu pensamento. Lá existe uma canção e uma flor.

Dançaram escorregando na bagunça. O sol foi dormir. A menina também. A mulher sentou na varanda e desenhou novamente na terra. O sentimento ainda estava lá. Ela plantou firme seus pensamentos enquanto o cigarro queimava na outra mão. A fumaça lançava desenhos ao céu do seu tanto pensar, pensar, pensar.  A insónia cantou o nome do amor. Sobrenome tocou no tom da saudade.

sobre Verdes, Águas e Tons

carregue a dor pra longe
me abrace e me leve pela última vez
até as turvas águas do passado

quando por lá estivermos
lave e regue a cor escura
mais pura do medo
até que estoure feito luzes nos cristais
ao diluir toda a minha aflição

beije meu pranto
estação qualquer
desde que seja do amor
janela do abrigo da paz
doce sentido
presença sua todo tempo
até sempre mais


Dedicado ao Verde de AdéliaTheresaCampos aqui

Sobre coelhos e espelhos

 

Tinha um gosto, por vezes doente, de prender os dedos em figa, em espera da sorte, em prece pelo futuro. Naquela tarde só foi diferente depois de lamber do cuspe da calçada. Doeu. Olhar marcado pela insônia, sem os carneirinhos dos sonhos dos desenhos, que corria as noites até contemplar o preguiçoso sol que custava a nascer. As palavras tremiam em sua mente, evitava parar para pensar muito. Os medos abraçavam seus cabelos, mordiam seu pescoço, trovão nos seus ouvidos de tantos nãos. Não era. Queria ser. O mundo não via seu querer. Só e ponto.

 

A figa, até então, era a força que o mundo podia ver. Jogou fora o seu vício. Nunca mais o usaria. Largou também as lentes da saudade de ter saudade, da esperança de futuro, de fé ou de qualquer crença. Chegou bem perto de esquecer de si mesma. Achou seu espelho, olhou bem no fundo. Seu nome não era Alice, não era tão tarde. Parecia mais a Mônica da revistinha. Catou seu coelho, cresceu no tempo e bateu em cada um de seus fantasmas.

Re-Partida




Uma palavra em uma nuvem. Ar que se confunde. Ventania ou asas de amor.
Que parte.




Bilhete

Maria Cláudia Mesquita

Palavras me confundem. Sim. Elas me revelam e contam das coisas de mim, do meu futuro, das minhas saudades. Já não sei mais o bicho que sou, animal selvagem, descontrolado ou ser comedido.

Seus olhos me contam a direita face do meu sorriso. Apavoro-me. Queria sair de você, perder a conta das horas, roubando o oxigénio, desandando sentidos, desejos daquelas ondas do mar de Abril.

Colo olhares e letras da sua língua e me queixo do que se desfaz aqui dentro. Perderia o juízo. Juro. Se a coragem não corroesse minhas mãos no exato momento que suspiro instintos da fraqueza. Liberta, solta, sua. Até a noite, girar de estrelas e luas, de viver em você no fim de só (não) ser.

O Viajante

Maria Cláudia Mesquita

Ficou por ali olhando para os lados na tentativa de compreender se o amor fica estacionado por alguns instantes em alguma estação. Queria achar a passagem para esse trem. Fixou-se na bagagem revistando mentalmente tudo o que estava por dentro, o que estava esquecendo, o que deixou por escolha, Escova de dentes, pente, jeans, camisas, aspirina... Raiva, pesadelos, saudade, abraços, amigos... Escondeu algumas dores, enterrou outras ali mesmo na plataforma, olhou o céu da noite e sorriu para a solidão das estrelas, gestos de quem deseja ser feliz.  Tomou as malas nas mãos e o violão nas costas e entrou no trem, Será esse o trem do amor? Tantas questões naquele ato de coragem batiam feito tempestade em sua mente, Que bicho está voando aqui dentro? Quais as cores do meu destino? Por que o riso embolado ao choro?  Na cabeça as batidas da água e vento o faziam nascer com a dor de quem nasce para o bicho da liberdade.

Admirou suas mãos espantado enquanto o trem começava a se mover. Leu as linhas do seu futuro adormecendo em sonhos que ainda não conhecia. Viu-se morto, em um jardim com flores enraizadas em seus dedos. Estava ao lado de um anjo e de alguns animais em um dia amanhecido de cores de nunca vistas. Imóvel diante da natureza, era parte de uma paisagem que vibra os ares calmos. Acordou assustado, suado, com respiração descompassada. O trem ainda se movia, a noite da solidão ainda o acompanhava. Apertou as mãos esfregando e agarrando as preces que não podia mais fazer, Meu Pai, por onde andas?  Fechou os olhos abrindo novas orações lembrando o anjo que velava seu corpo intacto fazendo conjunto com a paisagem.

O trem chegou no seu destino. Já era insônia ou era dia, era somente um texto ou agonia. Os cabelos agora longos, da bagagem só carregou a canção, dos pés descalços o caminho colado aos dedos de flor e poesia.

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