sobre Textos, Inspirações, Personagens e Saudades

 

Tenho na imaginação um par de alianças que não me servem para nada além dos devaneios que gostaria de construir e não consigo. Queria dar a elas algo útil e anticlichê, se é que se pode dizer assim. Tudo começou quando eu estava na casa de espelhos e comecei a ouvir a conversa das manicuras:

 

- Fulana, sabe aquela aliança que meu filho encontrou na praça perto da faculdade?

- Aham!

- Ontem, quando eu estava indo pra casa eu encontrei o par. A mesma data!

- Nossa Senhora, Beltrana! Como assim?

- Alianças iguais. O meu filho achou uma e eu outra. São iguais. Acho que de ouro branco, ou prata, um desenho bonito, você precisa ver, trabalhada! Você acha que isso quer dizer alguma coisa?

- Eu acho! Pra você aceitar aquele pedido do Antônio!

- Sai fora! – e riu de encheu o salão.

 

Eu fiquei pensativa. Queria ver, queria crer. Mentira, podia ser isso. Joguei opinião na conversa. Meti a colher? Disse que devia ser maldição e gargalhei, feito bruxa. Depois inventei uma lenda em que um bandido da região fazia seqüestros relâmpagos e cortava os dedos daqueles que não sabiam a senha do cartão do banco. Depois assassinava as vítimas na frente da igreja da Nossa Senhora do Bom Conselho e largava os corpos na porta do cemitério da Quarta Parada. Ele guardava os dedos em uma geladeira de isopor de uma casa abandonada, nos cafundós dos depósitos antigos da Mooca. Antes disso jogava as alianças fora, no meio do caminho.

 

A moça ria dizendo estar com medo. O rapaz que escovava meus cabelos gostou da idéia. Eu estava achando tudo ridículo, mas me diverti com a conversa boba. Saí do salão ainda cedo, fui para o trabalho e fiquei com as alianças na cabeça. Dias, idéias. O conto não veio até hoje, não consegui desmentir o fato nem as lendas de amor-desamor sem fim. Na verdade ainda vejo moças casando de branco, meninas vestidas de fadas entrando na frente da noiva carregando uma cestinha de alianças, When you wish upon a starFelizes para sempre?

 

Lugar comum, pensamentos meus. Imagens de anjos loirinhos com olhinhos claros, sem sexo para abençoarem meus desejos. Loucos? Não sei. Sei da saudade que Ana tem da busca dos textos. E que o amor é tonto, acho que vou dar as alianças nas mãos do Pedro junto com a canção, na porta da casa dos sonhos...

 

Quando um coração que está cansado de sofrer...

Sonhos e Rosas

Sonhos e Rosas

 

Desejava fazer correr dos dedos a letra pura que não maltrata os sentidos. Fazer dessa busca verdade de vida lhe dava força ainda que o labirinto que se escondia por dentro se encontrasse coberto de folhas secas dos descaminhos, desvios, desavisos. O mesmo antigo pensamento não a deixava escapar mostrando a medida certa de equilíbrio. Andou tanto e não achou nada diferente do próprio contorno do círculo. Umbigo? De querer ser tão grande queimou as etapas e mostrou o quanto ainda se vestia de vaidade. Sentiu as dores mas não desanimou. Fechou a porta olhou bem fundo e assistiu o brilho de uma pequenina estrela. Abriu  janela e pediu ao céu, que depois da calma e enigmática noite, a harmonia das manhãs de domingo se fizesse presente. Tocaria a paz no instante exato em que conhcesse que pensar na vida é viver e remorso não pode cobrir suas noites. Velou uma estrela cadente ao ensaiar um pedido. Desejou fazer correr dos olhos todo o perdão que ainda não sabia se existia em algum lugar. Adormeceu. Teve sonhos que nunca poderia imaginar ou mesmo se lembrar. Mesmo assim saiu da casa descalça em direção ao parque. Crianças faziam cantar as rodas das bicicletas, as mães exibiam seus bebês ao sol, pessoas corriam procurando saúde, namorados procuravam olhares só deles. Sentou-se sob uma das árvores e contemplou a tudo isso. Uma senhora lhe entregou duas rosas sem dizer uma palavra. Não precisava. Colocou naquele verde todos os seus cansaços lembrando de todos que a ajudaram chegar até ali. Depois de algumas horas se levantou. Pegou uma das rosas e entregou para um senhor que estava passando. Ele sorriu, soprou e as pétalas voaram como pássaros. Leves e tranqüilos.

coluna LENÇOL DE MARGARIDAS

Sonho avarandado

 

Vento que vem do mar canta feito concha em meus ouvidos. Sento ali mais uma vez para ouvir. Quietinha. Gosto de sol e saudade, língua de sal. Inflo de ar meu corpo que suspira em um ai samba-bossa, nem velha, não nova. Nossa!

 

Roda, gira, vira o vento, levanto vejo ao longe seu olhar. Mar. Violão nos braços, dança dos dedos, canto, viro show da bêbada alegria, esperança. A cada pulso sou mais eu, a cada nota sou mais sua. Onda bate feito pulso forte das gotas suaves. Amor.

 

Acordei, sol de domingo fez meu sonho desvendar. O olhar dos meus segredos, no meu quarto a me acordar.

 

Maria Cláudia Mesquita

 

 

*Inspiração e frases roubadas: Flor de Maracujá (João Donato e Lyslas Enio)

 

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