O Viajante

Maria Cláudia Mesquita

Ficou por ali olhando para os lados na tentativa de compreender se o amor fica estacionado por alguns instantes em alguma estação. Queria achar a passagem para esse trem. Fixou-se na bagagem revistando mentalmente tudo o que estava por dentro, o que estava esquecendo, o que deixou por escolha, Escova de dentes, pente, jeans, camisas, aspirina... Raiva, pesadelos, saudade, abraços, amigos... Escondeu algumas dores, enterrou outras ali mesmo na plataforma, olhou o céu da noite e sorriu para a solidão das estrelas, gestos de quem deseja ser feliz.  Tomou as malas nas mãos e o violão nas costas e entrou no trem, Será esse o trem do amor? Tantas questões naquele ato de coragem batiam feito tempestade em sua mente, Que bicho está voando aqui dentro? Quais as cores do meu destino? Por que o riso embolado ao choro?  Na cabeça as batidas da água e vento o faziam nascer com a dor de quem nasce para o bicho da liberdade.

Admirou suas mãos espantado enquanto o trem começava a se mover. Leu as linhas do seu futuro adormecendo em sonhos que ainda não conhecia. Viu-se morto, em um jardim com flores enraizadas em seus dedos. Estava ao lado de um anjo e de alguns animais em um dia amanhecido de cores de nunca vistas. Imóvel diante da natureza, era parte de uma paisagem que vibra os ares calmos. Acordou assustado, suado, com respiração descompassada. O trem ainda se movia, a noite da solidão ainda o acompanhava. Apertou as mãos esfregando e agarrando as preces que não podia mais fazer, Meu Pai, por onde andas?  Fechou os olhos abrindo novas orações lembrando o anjo que velava seu corpo intacto fazendo conjunto com a paisagem.

O trem chegou no seu destino. Já era insônia ou era dia, era somente um texto ou agonia. Os cabelos agora longos, da bagagem só carregou a canção, dos pés descalços o caminho colado aos dedos de flor e poesia.

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